terça-feira, 20 de abril de 2010

Um domingo

Eu costumava acordar, abrir meus olhos e pensar que estava com calor ou com frio por causa do ventilador ligado no teto. E reclamava para mim mesma.

Me levantava e ia em direção ao banheiro. Passava pelo corredor e todos estavam dormindo -meio raro isso -. Ao entrar no banheiro sentia aquele aroma emanado pelo alecrim que você colocava lá. E que te agradava tanto. O aroma penetrava pelas minhas narinas e me acalmava. Era como se eu tivesse no meio de uma floresta andando calmamente por entre os galhos e folhas úmidas mortas no chão e parasse por um instante e simplesmente respirasse. Aquele ar tão puro e natural - era a mesma sensação -.

Ia para a cozinha para pegar meu cereal. Pegava meu copo do mickey e o enchia com água. Voltava para o meu quarto, fechava a porta para não fazer barulho e lia. Esse caminho de ida e volta do meu quarto para a cozinha era tão insignificante na época. Era rotineiro. Mas lógico, que mais poderia ser? Afinal de contas era um caminho que eu fazia no mínimo vinte vezes por dia. E nem percebia.

Então o tempo passava. Mabel acordava e a primeira coisa que fazia quando saia de seu quarto era ir até o meu e falar bom dia. Deitava-se ao meu lado e só ficava lá. Ela nem olhava para trás ao sair de seu quarto. Mas óbvio, para que dar adeus a seu quarto em um dia qualquer se ela iria voltar? Ele não ia sair andando por aí ou coisa do tipo.

Conversávamos, ríamos, ajudava-a a preparar seu chá. Sentava-se em seu lugar na mesa e comia seu iogurte com granola e cream cracker com requeijão e queijo minas.

Minha mãe acordava, nos dava bom dia, preparava seu café, colocava 4 gotas de adoçante Zero Cal, colocava o pão francês no forninho e o comia com manteiga com sal.

Meu pai acordava, nos dava bom dia e preparava seu leite com nescau e o esquentava no microondas...

E então cada um ia fazer alguma coisa. Minha mãe ia assistir seus queridos seriados de domingo, eu ia para o computador e minha irmã lia Bernard Cornwell. Meu pai ia fumar na área...

A fome, perto da hora do almoço chegava e eu pulava por cima da minha cama para o outro lado do quarto. Ia em direção ao quarto da minha mãe para falar que estava com fome. E ela ria. Fomos para a cozinha e pensamos no que fazer para o almoço. Ela sabia o quanto eu gostava de macarrão com molho de tomate e ovo - do jeito que fazíamos na casa da tia Heloísa e depois íamos passear com tia Mônica na Moreira César-. E então fizemos macarrão.

O almoço estava pronto. E como sempre, era só falar que o almoço estava pronto que meu pai entrava no banho. Esperávamos por ele. E então cada um sentava-se em seu respectivo lugar à mesa e conversávamos. Terminamos de almoçar e tínhamos o dia inteiro ainda pela frente.
Resolvemos alugar um filme.

Como só eu e você queríamos assistir o filme, fomos para o meu quarto e fechamos as cortinas. O quarto realmente ficava muito agradável. Aquele escurinho que ao mesmo tempo era meio claro. A luz do sul batendo contra a cortina rosa e fazendo o quarto parecer o meu quarto. Me encostava na parede e meu campo de visão ainda era do meu quarto. A estante, meu som branco, os filmes, meu amplificador, meus bichinhos e fotos, minha bagunça e seus livros que nunca vi serem lidos. Era uma visão comum.

Começávamos a assistir o filme e só depois de muito tempo nos lembrávamos da pipoca. E então você ia até a cozinha - fumava um pouco que eu sei - e fazia a pipoca de panela. Quando voltava para meu quarto perguntava quem fazia a melhor pipoca do mundo. E eu não era modesta na resposta. Realmente era a melhor pipoca.

Vimos o filme e então você ia fumar... - não lembro outro comportamento, outra atitude, outro hábito. Está tudo se esvaindo na memória-.

O dia passava e finalmente anoiteceu. E antes mesmo que eu pudesse perceber, a luz proveniente da lua entrava pela janela do meu quarto. Estava ventando e a janela fazia barulhos. Barulhos como se fossem trovões. Poderia ser assustador para qualquer um, mas eu já estava acostumada e gostava. Era ao mesmo tempo turbulento e ameno. Era satisfatório quando eu ainda podia sentir a brisa do vento passando pela janela entreaberta que fazia as cortinas voarem e as páginas do meu livro virarem. Era satisfatório quando eu sequer podia ouvir o barulho turbulento e ameno que o vento fazia ao bater contra a janela. Era sim confortável e agradável. Eu me sentia estabilizada, concreta, firme, calma. Eu ainda sabia onde procurar por minha essência dentro de mim. Eu ainda conseguia respirar. Não estava sufocando.

Você entrou no meu quarto para me dar boa noite - incrivelmente não tínhamos brigado esse dia-. E você falava quão bom era tomar banho de lua. Falava o quanto gostava, o quanto isso te deixava calmo. E deitava-se comigo. Podíamos ouvir os barulhos de alguns carros freiando para passar pelo quebra-mola lá na rua, dos morcegos, dos grilos. Nem me lembro mais quando tudo isso aconteceu. Não me lembro mais quando eu ainda me sentia assim. Tão estabilizada.

Tudo agora é passageiro. Não sei bem se é passageiro. Talvez só seja porque tudo é tão desconfortável e incômodo, que eu só quero que esse momento acabe logo; que eu só quero que essa angústia se vá.

Mas eu não quero que tudo isso seja efêmero - pois desde o momento que eu entro pela porta da cozinha até o momento em que eu finalmente volto para o elevador e consigo respirar novamente -, foi tudo uma encenação. Encenação porque tudo que eu falo e faço na hora não é o que eu realmente penso e sinto.

Quando agora eu vou da cozinha para não sei onde, eu só desejo que o corredor fosse eterno, que nunca chegasse ao seu fim. Que ele não chegasse ao fim para que assim eu não tenha que me dar conta que acabou, que não vai voltar, que se esvairam... Aqueles momentos. Aquelas sensações que pareciam tão rotineiras. Mas que agora eu só quero de volta um antigo domingo. Eu repasso todos os momentos, conversas e atitudes na memória para tentar buscar um pouco dessas sensações de estabilidade novamente.

Mas a minha memória não está mais completa. Muitas memórias e momentos foram perdidos, foram embora. E decepções e descontentamentos ocuparam seus lugares. Não lembro mais teus hábitos. Não lembro mais o que costumava fazer a não ser fumar. E nem fumar você fuma mais. Simplesmente parou. E como eu vou saber?

Vou simplesmente imaginar que estou deitada na minha cama no meio de uma clareira, por onde a luz da lua entre e eu consiga ouvir os grilos e morcegos na noite. Por onde eu consiga olhar para o céu claramente e ver as estrelas ao redor da lua. E sentir a brisa do vento. O mesmo vento que fazia as janelas baterem e as cortinas voarem. E aí eu consiga me sentir calma novamente. Voltar nos pensamentos para o lugar que eu pertenço.

E aí respirar.

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